VACINA QUE SERÁ TESTADA EM SÃO PAULO TEVE ENSAIOS CLÍNICOS ANTERIORES NA CHINA

Circula nas redes sociais uma mensagem enganosa sobre os testes clínicos no Brasil de uma vacina contra a covid-19 produzida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech. Na semana passada, o governo do estado de São Paulo anunciou que a terceira etapa de testes será feita com 9 mil voluntários no País, com a assinatura de parceria entre a empresa farmacêutica e o Instituto Butantan

No Facebook, uma publicação obteve mais de 143 mil compartilhamentos e 4,7 milhões de visualizações ao afirmar que “a China tem 1 bilhão de habitantes e vai testar a vacina em São Paulo?” ao lado de um emoji (figurinha) representando dúvida e desconfiança. Porém, o conteúdo omite que a Sinovac realizou experimentos, durante as fases 1 e 2 do projeto, com voluntários chineses, e também faz uma comparação inadequada usando apenas um dado demográfico.

De acordo com a International Clinical Trials Registry Platform, mantida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a Sinovac iniciou testes clínicos, em 16 de abril, para estudo com 744 voluntários recrutados na China, com idades entre 18 e 59 anos. O estudo é randomizado, com grupo controle e testes duplo-cego — aqueles em que nem médico, nem paciente sabem se a dose contém produto ou placebo.

Em comunicado recente, o laboratório chinês afirmou que resultados preliminares indicam que a vacina não causou efeitos colaterais graves e mais de 90% das pessoas produziram anticorpos, segundo reportagem da Bloomberg. Os dados ainda precisam passar por avaliação de outros pesquisadores antes de serem publicados em revistas científicas. A empresa também anunciou outra pesquisa, com 422 participantes acima de 60 anos, mas a localidade e o período de testagem não estão claros.

Qual o motivo para se testar vacinas contra a covid-19 no Brasil?

A justificativa para a realização de testes fora da China passa pelos números atuais da pandemia de covid-19. Enquanto o Brasil é o segundo país do mundo com maior número de casos confirmados da doença, com mais de 928 mil infectados e 45 mil mortes até segunda-feira, 16, a China conteve a disseminação em cerca de 83 mil infectados e apresentava apenas 210 casos ativos na mesma data. Somente em junho, o Brasil registrou 411 mil novos casos.

Como a avaliação de uma vacina requer testes em milhares de pessoas ainda com exposição potencial ao vírus, os laboratórios chineses na corrida pela vacina passaram a buscar parcerias em outros países. Esse também é o caso do projeto em desenvolvimento pela Universidade de Oxford e a empresa AstraZeneca, do Reino Unido, por exemplo.

Em junho, foram anunciados testes em 2 mil pessoas no Brasil, sob coordenação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O País será o primeiro a participar do procedimento fora do Reino Unido. Em entrevista ao Estadão, o presidente da AstraZeneca no Brasil, Fraser Hall, explicou que a decisão leva em conta a grande população do País e a franca aceleração de casos de pessoas com covid-19. “Para fazer a testagem é preciso estar em um lugar que o vírus está atuando com força. É por isso que o Brasil está tendo grande parte nisso, assim como o Reino Unido e os Estados Unidos”, disse.

Segundo publicação da OMS de 9 de junho, 136 vacinas contra o novo coronavírus estão em desenvolvimento no mundo, mas apenas 11 já avançaram os estudos pré-clínicos e começaram testes de segurança e eficácia em humanos. Além dos projetos da Sinovac Biotech e de Oxford/AstraZeneca, existem candidatas das empresas Moderna, CanSino, Novavax, Inovio, Sinopharm, BioNTech e Pfizer, além do Imperial College London, no Reino Unido, e do Institute of Medical Biology, na China.

O número de habitantes na China também não está correto na mensagem enganosa. Dados do Banco Mundial, agência independente da Organização das Nações Unidas (ONU), mostram que o país asiático tinha população de 1,393 bilhão em 2018, dado mais recente. A mesma fonte aponta 209 milhões de habitantes no Brasil no mesmo período. Essa comparação, no entanto, não é adequada para avaliar qual o melhor território para a realização de testes com vacinas, pois estas demandam ambientes com potencial de incidência para demonstrar eficácia de fato.

Desconfiança é apoiada em boatos sobre vírus criado em laboratório

Nas redes, o acordo entre o Instituto Butantan e a Sinovac Biotech para a terceira etapa de testes da vacina também fez surgir uma série de ataques apoiados em teorias de que o Sars-Cov-2, causador da covid-19, teria sido criado em um laboratório de Wuhan, na China. Estadão Verifica e o Projeto Comprova já desmentiram vários conteúdos do gênero

Após o anúncio do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) compartilharam postagens falando em “vacina chinesa” e “vírus chinês”, termos que sugerem artificialidade do vírus e conspiração na pandemia. Alguns deles foram o presidente nacional do PTBRoberto Jefferson, o presidente da Fundação PalmaresSérgio Camargo, e o blogueiro bolsonarista Bernardo Küster, um dos alvos do inquérito das fake news contra o Supremo Tribunal Federal (STF).

Fonte:

https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/vacina-que-sera-testada-em-sao-paulo-teve-ensaios-clinicos-anteriores-na-china/

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