TESTAGEM NO COMÉRCIO DE SP É PONTUAL E NÃO ALCANÇA MAIOR PARTE DOS TRABALHADORES

Recomendação da Prefeitura de São Paulo para lojistas na reabertura do comércio, a testagem dos funcionários para covid-19 vem sendo feita de maneira pontual e principalmente entre as grandes cadeias do varejo. Pequenos comerciantes afirmam que não têm condições de pagar os testes. Quase duas semanas após o início da flexibilização, ainda não existe um grande movimento de testagem das equipes, um reflexo de um dos principais problemas do País no enfrentamento da pandemia.

Entre os pequenos e médios comerciantes, a prioridade é a recuperação dos números após o período de quarentena. Os oito funcionários da Jomal Uniformes, pequena loja de artigos militares na Avenida Tiradentes, zona central da cidade, ainda não fizeram o teste para covid-19. Cada colaborador preenche uma declaração de saúde em que atesta a ausência de contato com pessoas contaminadas e também a falta de sintomas da doença. “O teste é uma orientação. Se eu tivesse condições, eu faria a testagem. O problema é o custo. Não tenho condições de fazê-lo. Isso está na contramão da situação financeira”, afirma Aldo Macri, que também é diretor do Sindicato dos Lojistas do Comércio de São Paulo (Sindilojas).

Com vendas que ainda estão abaixo do normal na loja de armarinhos que leva seu sobrenome, também na região central, o lojista Guilherme Ambar considera “supercomplicado” fazer a testagem dos 35 funcionários neste momento de retomada. “Seria um custo adicional. O ideal seria que a iniciativa dos testes partisse do sistema público de saúde não que transferissem essa responsabilidade aos empresários”, argumenta. “Mas estamos atentos à verificação dos sintomas”. 

Pesquisa feita pelo Sindilojas com 102 empresas, entre lojas de rua, galerias e shopping centers da cidade de São Paulo, entre 13 e 22 de junho, confirma o foco dos comerciantes no momento. Do total, 95 afirmaram que a manutenção das despesas é a principal dificuldade no momento. No mesmo universo, 82 afirmaram que conseguiram se adaptar às medidas sanitárias e 20 confessam que ainda estão se adaptando. 

As grandes redes varejistas, por sua vez, estão aderindo à testagem. O Magazine Luiza informa que testou 2.158 colaboradores no Brasil desde o início do mês de maio, a maioria no Estado de São Paulo. Quando um colaborador apresenta sintomas ou relata contato com pessoas sintomáticas, suspeitas ou confirmadas, ele passa por um teste rápido por meio de uma parceria com o laboratório Sabin, que vai até a casa do funcionário. Em caso de teste positivo, ele é afastado por 14 dias. A equipe mais próxima também é testada. O número de testados até agora corresponde a 10% do total de funcionários. Fábio Mario, gerente de Saúde e Segurança da rede, revela que a expectativa é alcançar 5 mil testados na semana que vem.

Na loja da avenida Nossa Senhora da Lapa, zona oeste, atuam 33 funcionários. O gerente Pedro Haddad conta que apenas um funcionário precisou ser testado. O resultado demorou dez dias para chegar e deu negativo. “O teste traz maior segurança para todo mundo”, avalia o gerente.

A C&A, especialista em produtos do varejo de moda e serviços financeiros, informa que adotou a realização de testes nas regiões onde o procedimento é determinado. Nas localidades onde não há obrigatoriedade, a empresa “disponibiliza a realização de testes aos associados com sintomas que tiverem dificuldade em realizá-lo por qualquer razão. Nesses casos, o agendamento do teste é enviado ao colaborador, com todas as orientações e suporte para que a pessoa vá até o laboratório ou hospital realizar o procedimento”, diz nota enviada ao Estadão sem mencionar o número de colaboradores testados.

A funcionária Nathalia Grotti realizou o teste no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e obteve o resultado – negativo – no dia seguinte. “Realizar o teste foi muito importante para mim, pois me trouxe uma sensação de renovação e atenção com os cuidados. Toda minha família foi amparada pela empresa desde o primeiro instante. Não me senti sozinha em nenhum momento”, diz a funcionária de 30 anos que atua na área de RH.

Com 500 mil trabalhadores na capital paulista, o Sindicato dos Comerciários de São Paulo está atuando em duas frentes para reduzir o risco de contágio  da categoria pela covid-19. Ricardo Patah, presidente do sindicato e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), quer que a testagem dos trabalhadores pelas empresas do varejo seja obrigatória e incluída como cláusula no acordo de convenção coletiva. “Vamos exigir um item adicional na convenção coletiva. Já estou falando com as empresas e estamos bem encaminhados com o Carrefour e o GPA”, diz o presidente do sindicato. O passo seguinte será negociar com os sindicatos patronais.

Outra frente de atuação é negociar preços reduzidos na compra e aplicação dos testes sorológicos com laboratórios e empresas prestadoras desse serviço, a fim de identificar os trabalhadores assintomáticos. “Estamos negociando com a Roche e com a Intermédica, acredito que vamos fechar um acordo”, diz Patah. Com isso, 100 mil varejistas da cidade poderão comprar e aplicar os testes, usufruindo da condição especial negociada pelo sindicato. Segundo Patah, a testagem sorológica normal, que custa cerca de R$ 200, sairia por algo ao redor de R$ 100. Ele ressalta que existem vários laboratórios que poderão fornecer testes para os varejistas  e que negocia com a Roche. “Não podemos ter nada carimbado.”

No momento, o sindicato conseguiu fechar acordo com a Roche a o Grupo NotreDame Intermédica para testagem dos funcionários do sindicato e dos sindicalizados, com preços reduzidos. Os testes serão aplicados a partir da próxima segunda-feira. O Grupo NotreDame confirma que foi contratado para fazer as coletas de exames na sede do sindicato. A Roche esclarece que “atuou facilitando o contato do sindicato com os laboratórios que oferecem as soluções Roche, mas não participou da negociação entre as partes”.

O GPA , dono das bandeiras Pão de Açúcar, Extra e Assaí, informa que está testando, seja por meio de testes realizados em clínicas próprias ou em laboratórios parceiros e convênios médicos, os funcionários sintomáticos para covid-19. O GPA tem quase 100 mil funcionários no País.

O Carrefour informa que desde o início da pandemia implantou uma série de iniciativas de saúde e higiene em todas as suas operações  e que a realização de testes para detecção da doença para todos os funcionários com sintomas já faz parte do protocolo da empresa.  

A testagem dos colaboradores não é condição obrigatória para as lojas. A Prefeitura paulistana usa o termo “recomendação” na portaria publicada no dia 10 de junho no Diário Oficial. “Quando um colaborador for identificado como infectado, recomenda-se a testagem dos demais colaboradores, especialmente daqueles que tiveram sintomas da covid-19, sendo recomendado, caso possível, a testagem de todos os empregados da empresa ou firma ou a testagem amostral dos empregados”.

Dois tipos de testes

Organização Mundial de Saúde e o Ministério da Saúde recomendam a testagem em massa como uma das melhores estratégias para combate da covid-19. Embora os testes permitam o monitoramento da expansão da pandemia, o Brasil é o que menos testa a sua população em comparação com os dez países com mais casos de coronavírus. O número de exames é de 1 para cada 502 pessoas. Os Estados Unidos, por exemplo, testam 1 a cada 27 cidadãos.

Existem dois tipos de testes hoje no mercado. Mais complexo e demorado, o RT-PCR é o método mais eficaz, mas exige investimentos de R$ 280 a R$ 480. Os testes sorológicos, que são realizados mais rapidamente, com resultados em menos de um dia, são mais baratos e vão de R$ 240 a R$ 420. Lídia Abdalla, presidente executiva do Grupo Sabin Medicina Diagnóstica, afirma que os números de pedidos de testes estão crescendo. “Já atendemos cerca de 200 mil funcionários de empresas de vários setores em todo o País”, revela.

“A prioridade agora é investir na qualidade da saúde e bem-estar do colaborador. A testagem é essencial. Ela vai ajudar a identificar indivíduos que estejam com o vírus e que não estão aptos a retornarem às suas atividades. Além disso, o serviço contribui com a identificação dos profissionais que já tiveram contato com o vírus (os que já têm anticorpos), completa. 

Emerson Gasparetto, vice-presidente da área médica da Dasa, também destaca “retornos muito positivos” e revela que os testes in company ultrapassam 120 mil vidas em mais de 300 empresas. “Empresas de todos os setores têm nos procurado, motivadas pelo acompanhamento dos decretos governamentais para a retomada as atividades econômicas e pela preocupação em manter os cuidados e a saúde de seus colaboradores e familiares”, afirma.

Enquanto a testagem não é realizada em larga escala, alguns funcionários do comércio sentem medo de contaminação. Na loja Munny, nos Jardins, zona oeste de São Paulo, a gerente Marta Rodrigues afirma que não saía nem para ir ao mercado durante a quarentena por causa da bronquite – doenças respiratórias estão no grupo de risco da doença. “Ainda não chegamos ao pico da pandemia. Eu tenho medo, mas temos de trabalhar”, afirma.

Em uma loja de fantasias na Rua 25 de março, região central, a gerente Maria Assumpção não se descuida. “Faz 30 anos que trabalho aqui e nunca vi uma situação como essa. Eu tomo todos os cuidados. A gente tem de respeitar aquilo que a gente não vê”, receita a vendedora de 59 anos.

Outro lado

A Prefeitura de São Paulo reafirmou que o acordo para reabertura do comércio de rua, shoppings e galerias determina que a fiscalização e monitoramento sejam realizados por autotutela. As entidades devem seguir medidas de higiene, distanciamento social, sanitização de ambientes, orientação dos clientes e dos colaboradores, medição de temperatura dos clientes, promover horários alternativos de funcionamento, redução do expediente, sistema de agendamento para atendimento e, se possível, viabilizar a testagem de colaboradores.

Após os primeiros 15 dias da retomada gradual de atividades do setor, a Secretaria Municipal de Saúde observou que o número médio de pedidos de internação permaneceu em queda. No dia 21 de maio, foram registradas 52 solicitações. Já no dia 22 de junho, foram feitos 14 pedidos para internação em leito de UTI covid-19. No final de abril, o número de solicitações diárias para internações em leitos de UTI e enfermaria chegou a 350. 

Esses dados, aliados ao aumento da oferta de vagas, resultou também na redução da ocupação de leitos de UTI covid-19 na cidade: foi de 57% nesta terça feira, 23, após ultrapassar 90% no mês passado.

Alfredo Cotait, presidente da Associação Comercial de São Paulo, cita o exemplo hipotético de uma empresa de varejo de vestuário que só pode atender 20% de sua capacidade, conforme prevê o protocolo da prefeitura. “Nessa empresa de oito funcionários, quatro estão em casa. Além disso, ela só funciona quatro horas. Ela está quase fechando e, por isso, não tem condições de pagar testes. As vendas ainda não voltaram ao normal”, argumenta.

Fonte:

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,testagem-no-comercio-de-sp-e-pontual-e-nao-alcanca-maior-parte-dos-trabalhadores,70003344036

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