O PROTAGONISMO DA GESTÃO DE CUSTOS, RENTABILIDADE E PRECIFICAÇÃO NAS EMPRESAS DE SAÚDE DE 2020

A foto mostra que uma participante “brindou” com um post no Linkedin a Jornada da Gestão em Saúde EAD de junho, do eixo temático custos, rentabilidade e precificação em saúde … um grande orgulho que não é possível retribuir com a mesma grandeza.

O fato dos cursos que estavam programados para serem realizados presencialmente em Joinville, Belo Horizonte, São Paulo, Brasília, Recife, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre, terem tido adesão em formato EAD nesta etapa é porque definitivamente o tema entrou na agenda das empresas de saúde: secretarias de saúde, operadoras de planos de saúde, serviços de saúde, fornecedores de insumos para a área da saúde … todos estão preocupados com a sustentabilidade pós pandemia, e conhecer bem e ajustar seus custos e preços será o “fiel da balança” da competitividade … e sobrevivência !

Dezenas de gestores dos mais variados tipos de empresas que atuam no segmento discutindo que vem aí uma inflação que nenhum órgão poderá medir – além da certeza de que todos os indicadores oficiais que vemos e veremos são irreais … a certeza de que estão longe … mas muito longe da realidade.

É fácil entender observando como se formam, por exemplo, os preços dos medicamentos … o insumo mais comum da área da saúde.

A maioria das pessoas envolvidas em gestão comercial, faturamento e auditoria de contas se refere aos preços dos medicamentos como “Tabela Brasindice”:

· Nós utilizamos este termo regularmente, mas quem realmente conhece o segmento sabe que não existe uma “Tabela Brasindice”;

· Brasindice é uma prestação de serviços de uma empresa privada, que tabula de forma amigável os preços de medicamentos da ANVISA;

· O governo “tabela” os preços de medicamentos e divulga na Internet (é só pesquisar “CMED” que ela aparece).

É muito discutível o governo tabelar preços:

·  Tem quem defenda que o governo não deveria se intrometer em preços … a lei da oferta e da procura é quem rege os preços, com ou sem tabelamento;

· Tem quem defenda que se ele não fizer isso “o sistema” vai explorar quem necessita de tratamento. Existe aí um fundo de verdade, mas não é uma verdade absoluta;

· E tem os que defendem que se ele tabela preços de medicamentos, deveria tabelar também preços de materiais, serviços e outros insumos utilizados na saúde, porque o medicamento não trata o paciente sozinho, precisa de alguém que prescreva, alguém que ministre, equipamentos para ministrar, materiais para ministrar. A pergunta que vale 1 milhão de dólares é por que o governo tabela preços de medicamentos e não tabela preços de OPME’s que são muito mais danosos para os sistemas de financiamento do que os de medicamentos ?

Na prática este tabelamento não é aplicado em quase 100 % dos casos:

· Existe ali um preço máximo para venda ao governo, mas diversas situações de mercado fazem com que ou o governo compre por um preço infinitamente menor que aquele, ou maior que aquele;

· Também um preço máximo de fábrica – comprar por menos é bem comum (afinal é um preço máximo), mas comprar por preço mais caro que aquele está longe de ser coisa rara;

· E um preço máximo ao consumidor – este é o que tem menor relação com a realidade. A competição faz com que muitos medicamentos sejam vendidos por preço inferior, e o PMC não é a base para formação do preço: o valor mais baixo é definido peça concorrência de acordo com as características regionais. E é muito comum vender por preço maior que o PMC, porque alguns contratos entre fonte pagadora e serviço de saúde não se viabilizam se o PMC for o limite de preços. O Brasil não é um pequeno país, e suas diferenças econômico-sociais se equivalem às da Europa, Ásia … e não de um único país destes continentes.

Tomando como base aleatoriamente um medicamento qualquer (aqui o Propofol) para discutir o papel inadequado do governo no tabelamento dos preços:

· O reajuste dos preços entre 2017 e 2018 foi de 2,5 %, e o entre 2018 e 2019 foi 4,3 %;

·  Foram definidos com base em uma “inflação oficial” que só serve para rechear os chatíssimos comentários de economia na mídia e, evidentemente e principalmente, para os interesses do governo;

· Qualquer pessoa que pague contas, “faça supermercado”, use o dentista … enfim qualquer pessoa que vive no Brasil ri (ou chora) quando alguém diz que a inflação de dois anos foi 7 … 8 % ! Quem dera que a “conta de luz”, o arroz, o pãozinho, a pizza … tivessem tido este aumento pífio calculado pelas “fórmulas tabajaras” dos economistas !

Quem fabrica não consegue manter preços com este índice “me engana que eu gosto” porque o salários dos seus funcionários, a energia elétrica, o transporte, os insumos que adquire para fabricar, embalar, o IPTU … ou seja, tudo que ele gasta … não são reajustados pelos índices oficiais … são reajustados de acordo com o mercado real.

Então, para sobreviver e continuar abastecendo a área da saúde, se não é possível ajustar o preço à necessidade o mercado, se utiliza dos artifícios legais que existem.

Um deles é ir mudando a apresentação:

· Notando na figura que o mesmo medicamento possui diversas apresentações, não só em relação à técnica de ministração (capsulas, injetável …), mas em relação à quantidade de ampolas por caixa, de comprimidos por caixa …

· Para cada apresentação um registro na ANVISA … e pronto … algemas no reajuste de preços de acordo com a inflação oficial e irreal !

· Uma nova apresentação … um novo registro na ANVISA … e a vida deste produto começa do zero. Pelo menos por alguns anos o preço do produto não será tão aviltado pelos reajustes oficiais do governo.

Não vamos esquecer de citar que um mesmo medicamento, com a mesmíssima apresentação têm preços diferentes na tabela:

· Porque o registro é feito por fabricante / distribuidor no Brasil;

· E eles competem para vender medicamento da mesma forma que competem os fabricantes de carros, os produtores de frango … tem gente que acha que todos eles são parte de um grande cartel, combinam todos os preços para prejudicar as pessoas, são arqui-inimigos da sociedade … esta “teoria da conspiração” é muito maléfica para a gestão adequada da saúde pública e privada.

O ponto mais discutível deste tabelamento é que ele não contém os preços:

· Em determinadas situações ele contribui para aumentar o preço. O comprador não atento ao mercado paga o “preço Brasindice” sem saber que seu concorrente paga muito menos;

· Ao pagar o preço da tabela acha o preço justo, quando na verdade é muito mais caro, e se sente confortável com isso. Ainda não conheci algum vendedor de qualquer coisa que avise o comprador que o preço que ele está lhe pagando está caro – e não existe nenhum crime aqui: se você paga mais caro pelo sabonete em um supermercado mercado ao invés de pesquisar o preço em outro, convenhamos, não é culpa do supermercado !

Preços de medicamentos diminuem quando existe política governamental e não pelo controle de preços:

· Há muitos anos atrás o preço dos medicamentos para controle de pressão e diabetes eram muito mais caros;

· Quando passaram a serem distribuídos gratuitamente pelo governo nas “farmácias populares”, a queda dos preços foi abissal – isso é política governamental;

· Mudou a escala de produção … quem produzia 1 passou a produzir 100 … e os preços despencaram, porque os fornecedores passaram a ganhar mais vendendo mais, com margem de lucro menor por unidade.

Logo no início da pandemia alguns fatores começaram a sinalizar um cenário devastador para o segmento econômico da saúde no Brasil.

Alguns medicamentos de uso no tratamento de pacientes COVID-19 começaram a faltar no mercado:

· O mercado não tinha esta média de consumo. Serviços de saúde e distribuidores não tinham em estoque, e fabricantes não tinham capacidade de produção para adequar ao consumo;

·  Se o medicamento é exclusivo para tratamento COVID-19, faltou para os pacientes desta doença apenas, mas se são utilizados em outros tratamentos (maioria absoluta dos casos) “faltou pra todos os pacientes”;

·  No pior cenário, se o medicamento é produzido pela China ou Índia, ou o insumo para fabricação vem destes países (coisa muito comum, infelizmente), é claro que estes países terão que adequar sua produção para o mundo todo, e não só para o mercado brasileiro.

Em um mercado importador quem disse que a China e Índia vão manter seus preços ? Se fosse o Brasil fornecendo para o mundo manteria ?

E os fabricantes nacionais:

·  Não sobrevivem destes medicamentos específicos. No geral têm queda de vendas em um mercado, no geral, recessivo da área da saúde;

·  No geral caiu sua receita;

· E tiveram que manter seus custos. O valor do IPTU continua o mesmo, a contribuição ao INSS, FGTS … sobre a folha de pagamento continua a mesma;

· Ou aumento de custos … China e Índia passaram a vender mais caro, ou alguns distribuidores mundiais fizeram isso mesmo que as fábricas lá na origem não fizeram;

· O governo não reduziu a alíquota de tributos sobre folha de pagamento, e quer que os empresários mantenham seus funcionários com menor receita;

· Se tiver que vender estes medicamentos específicos pelo “preço tabelado” vão falir.

O governo não está olhando para o segmento como deveria:

· Ele está confortável mantendo todos os tributos (impostos, contribuições e taxas) sob a alegação de que com a queda da economia existe a queda de arrecadação;

· O que se discute é a aplicação da arrecadação dos impostos. Salários do presidente, ministros, senadores, deputados, governadores, secretários, vereadores, juízes … e seus assessores … não tiveram queda. Gastos com a coisa pública, no geral, estão intactos mantendo uma classe de pessoas que não sentirão o impacto da crise;

· É fácil manter o foco populista afirmando que vai mandar prender quem estiver vendendo por preços maiores que a tabela !

O mercado está reagindo como pode: como ocorre com a venda de qualquer coisa … só está conseguindo comprar quem estiver disposto a pagar mais caro pelo insumo, e medicamento está “no meio do bolo” como qualquer outro.

Conversando com um participante da jornada de custos ele disse que uma determinada fração de anestésico que pagava 4 agora está pagando 14:

· Isso mostra que, como sempre, não teremos indicadores oficiais de inflação que chegarão perto da inflação real da saúde no pós pandemia … o que se vê na mídia é pura abstração dos economistas. Aqui estamos falando de um aumento de 250 % … e pode ser que teremos que fazer o sacrifício de ouvir economistas falando em deflação;

· E mostra que existe desabastecimento de medicamentos, mas apenas se quiser comprar pelo preço tabelado … se quiser pagar mais caro nada faltará, sejam os fabricados aqui no Brasil, seja os importados da China e da Índia.

Os gestores da área da saúde devem que entender que entramos em um cenário jamais experimentado no Brasil. Além da crise sanitária, e da crise econômica em consequência dela (coisas que estão ocorrendo no mundo todo), nossos políticos nos fizeram o favor de juntar mais 2 crises a elas: uma crise política e uma crise institucional (um privilégio de raros países no mundo) … que Deus tenha piedade de nós !

Os desafios dos gestores da área da saúde serão basicamente 2:

· Saber entender o mercado, diferenciando quem está vendendo mais caro para se aproveitar de uma situação, daqueles que se não majorarem os preços vão para a falência. Conhecer o mercado para “não fazer bobagem” … não perder parceiros que demoraram décadas para desenvolver ao rotular todos como “bandidos” … conhecer o mercado;

· E conter custos … no novo normal tudo será importante … mas conter os custos é muito, muito, muito mais importante … quem não fizer vai quebrar … sejam operadoras de planos de saúde, serviços de saúde, secretarias de saúde, clínicas, consultórios, SADTs, ou fornecedores de insumos para a saúde … não basta saber calcular custos (coisa de contador) … é hora de conter os custos (coisa do gestores) … fazer isso com uma ferramenta simples, que permita simular muitos cenários rapidamente … neste momento não é necessária a precisão dos números na segunda casa da vírgula … é necessária a flexibilidade para simular os diversos cenários que podem ocorrer !!!

Fonte: https://coronavirus.victorysaude.com.br/wp-admin/post-new.php

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