CONHEÇA OS TESTES PARA O CORONAVÍRUS EM USO NO BRASIL E SUAS LIMITAÇÕES

O avanço da Covid-19 em todo o mundo tem esbarrado em uma dificuldade. Como determinar quantas pessoas estão com o vírus?

No Brasil, a orientação do Ministério da Saúde até o dia 19 de abril era de que os testes para coronavírus fossem feitos apenas em casos graves e em profissionais de saúde.

O novo ministro da Saúde Nelson Teich defendeu a utilização de testes em massa na população dois dias após a sua posse, mas a ampliação do número de testes é um dos gargalos enfrentados hoje.

Em 24 de março, o Ministério da Saúde anunciou a compra de 22,9 milhões de testes, dos quais apenas 900 mil foram entregues até 15 de abril. Apesar disso, na segunda-feira (20) Teich aumentou a previsão para 46 milhões, sendo 24,2 milhões de testes RT-PCR (reação em cadeia de polimerase em tempo real) e 22 milhões de testes rápidos.

Embora a expectativa seja de testar até 50 mil pessoas por dia, o Ministério da Saúde tem a entrega programada de apenas 9,2 milhões do total de 22,9 milhões previstos.

Desses 9,2 milhões de testes, já foram entregues mais de 900 mil, sendo 104 mil testes moleculares fornecidos pela Fiocruz e outros 300 mil do mesmo tipo doados pela Petrobras. A pasta informou que já distribuiu também 500 mil testes rápidos doados pela Vale, de um montante de 5 milhões, a ser completado ainda no mês de abril.

O governo do estado de São Paulo anunciou que já recebeu o contingente de 1,3 milhão de testes moleculares comprados da Coreia do Sul.

Quem recebeu esses kits foi o Instituto Butantan, que coordena a Plataforma de Laboratórios para Diagnóstico do Coronavírus, rede de 45 laboratórios, entre públicos e privados, responsáveis por fazer os diagnósticos no estado.

A chegada de novos insumos, segundo o governo, aliviou o represamento de amostras e a fila de exames foi zerada na segunda-feira (20).

Além disso, o governo deve distribuir também 120 mil testes rápidos aos municípios do estado de São Paulo.

A plataforma consegue processar até 5.000 exames por dia, segundo o diretor do Instituto Butantan Dimas Tadeu Covas. A expectativa é de que até maio a capacidade de processamento total seja de 8.000 amostras por dia.

Com ela, espera-se também que as unidades regionais do Adolfo Lutz passem a encaminhar as amostras para análise nos laboratórios da rede.

O Instituto Butantan criou um laboratório especializado para a análise das amostras. Com sistema de pipetagem automatizado, o instituto pretende realizar sozinho até 2.000 testes diários. Os testes realizados pelo instituto serão do tipo RT-PCR.

Também chamados de moleculares, esses testes buscam a presença do vírus no organismo através da análise de material coletado da garganta e nariz do paciente.

O princípio dos testes moleculares é uma reação em cadeia –que dá nome ao procedimento– da enzima polimerase, responsável por “criar” fragmentos de DNA.

O material genético do vírus, que é uma fita simples de RNA, é primeiro transformado em uma dupla fita, o DNA, para fazer a amplificação.

O processo funciona assim: além do material genético presente na amostra, são adicionados em uma placa a polimerase, “primers” –marcadores que se grudam a uma parte conhecida do genoma do vírus– e vários nucleotídeos soltos –os “blocos” de construção.

Essa placa é colocada em uma máquina de PCR –também chamada de termociclador. A máquina, por sua vez, gera vários ciclos com mudança de temperatura (calor, frio, calor) e a cada etapa produz duas fitas adicionais de DNA.

Com várias repetições, o produto final são muitas cópias do material genético inicial –em aproximadamente 4 horas são mais de 1 bilhão de cópias geradas. Assim, mesmo uma quantidade de vírus pequena no organismo pode ser facilmente identificada.

Esses fragmentos são então “lidos” em uma placa de gel de agarose. Como a sonda utilizada tem fluorescência, a presença do vírus pode ser facilmente detectada.

Além disso, os testes RT-PCR diferenciam quantidades “fracas” do vírus de uma presença mais forte viral.

Embora os ciclos sejam relativamente rápidos –de 1 a 2 horas–, todo o procedimento laboratorial leva até 4 horas, e o diagnóstico pode levar dias.

Contudo, a alta qualificação do corpo técnico e os padrões elevados de biossegurança exigidos para os testes PCR com alto índice de confiabilidade sejam produzidos afetam a demanda dos mesmos devido à falta de recursos e à escassez de instituições capacitadas.

Já os testes rápidos buscam identificar anticorpos produzidos pelo corpo humano específicos para o vírus.

O procedimento empregado é o imunocromatográfico. A partir de uma amostra de sangue do paciente, isolam-se os anticorpos, que são acoplados a uma enzima. Vírus e anticorpos são adicionados em uma placa de plástico com 96 micro poços e embebidos em uma substância incolor.

Essa substância incolor permite a aderência do vírus à membrana do poço plástico. As amostras de vírus estão marcadas com ouro coloidal.

Caso os anticorpos sejam específicos para aquele vírus –no caso, o Sars-CoV-2–, vão se ligar a estes. Caso o anticorpo se ligue ao vírus é produzida uma coloração em forma de faixa no local. Assim, o resultado é visível a olho nu.

Os testes sorológicos serviriam para identificar pessoas que já tiveram contato com o vírus e se tornaram imunes.

Por serem bem mais rápidos –entre 10 a 30 minutos já é possível obter o resultado– e não necessitarem de laboratórios equipados, especialistas acreditam ser uma boa solução para testar profissionais de saúde, por exemplo, que são muito mais expostos ao vírus.

O problema é que os anticorpos produzidos pelo corpo no início do contágio –entre o 3º e o 5º dia– são os chamados IgM, que são generalistas. Os anticorpos IgG, que são específicos para um agente viral e detectados no teste, só costumam aparecer na fase tardia de uma infecção –por volta do 10º dia.

Além disso, há ainda uma alta taxa de falsos negativos nesses testes, uma vez que os anticorpos podem ser decorrentes de contatos prévios com outros coronavírus que já circulam na população.

Cientistas americanos parecem ter conseguido isolar e identificar anticorpos específicos para o Sars-CoV-2 no sangue de pessoas que foram contaminadas. O estudo foi publicado na plataforma medRxiv sem revisão por pares.

Em uma pandemia em tempo real como a da Covid-19, no entanto, uma das barreiras que impedem a implementação desse teste em massa é a dificuldade em identificar pacientes recuperados.

Brasileiros também têm buscado maneiras mais rápidas e eficazes de identificar a presença do vírus.

Uma delas é um projeto da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) que desenvolveu um novo protocolo de teste molecular que tem o mérito de usar uma região conhecida do genoma do vírus responsável por formar sua capa de revestimento –o gene “E”, de envelope. Esse protocolo mostrou-se muito mais eficiente nos testes diagnósticos para Sars-CoV-2.

A força-tarefa inclui profissionais de vários laboratórios e institutos da universidade, que conseguiram credenciar o Hospital das Clínicas de Campinas para receber as amostras e fazer os diagnósticos. Antes, as amostras iam para o Instituto Adolfo Lutz, centro de referência para a certificação desses protocolos.

Segundo Matheus Martini, que desenvolve seu pós-doutorado no Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes, com a padronização eles conseguiram aprovação de 100% nas amostras positivas. Por isso, estão otimistas em conseguir realizar os testes na região, desafogando um pouco os testes represados.

Martini conta que seu supervisor, o virologista José Luiz Módena, tem dado suporte e apoio aos integrantes de seu laboratório na nova empreitada. Os alunos de mestrado e doutorado sob sua tutela tiveram a opção de parar os seus projetos em andamento e receber treinamento para atuar no combate ao coronavírus.

Os alunos e pesquisadores, que recebem financiamento de agências de fomento públicas, estão usando os reagentes comprados para realizar suas dissertações e teses para o diagnóstico da Covid-19.

“A gente não sabe quanto vão durar [os reagentes], esperamos que por um bom tempo, porque a gente não sabe quando vai receber os insumos novos. Mas estamos recebendo bastante apoio da instituição e do MCTIC [Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação]. Fazemos o que a gente pode”, diz o pesquisador.

Os cortes em pesquisa e inovação têm aplacado as instituições públicas, que viram o orçamento federal para a ciência cair nos últimos anos para menos da metade do que era disponibilizado em 2012.

No entanto, iniciativas como a de Módena mostram que as universidades públicas ainda estão preparadas para enfrentar as dificuldades e colaborar no combate ao novo coronavírus.

“Como já temos contato com empresas que vendem os kits moleculares e temos a vantagem de ter pessoal treinado e capacitado, esperamos conseguir realizar até 5.000 testes por dia”, diz Martini.

Fonte:

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/conheca-os-testes-para-o-coronavirus-em-uso-no-brasil-e-suas-limitacoes.shtml

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